| ::. A
matemática como modelo (ferramenta) |
Marcos
Leandro Ohse
Professor titular da UNIR-Universidade Federal de Rondônia.
Mestre em Matemática pela UNIJUI-Universidade Regional
do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
E-mail
- marcosohse@hotmail.com
RESUMO:
Este artigo tem por finalidade fazer uma breve revisão
do conceito de alguns tópicos da história
da matemática e sua aplicação na
vida dos alunos e da sociedade como um todo. Desde o
princípio a matemática teve uma aplicação
muito grande como uma ferramenta que auxiliava as demais
ciências. É preciso entender que o ensino
da matemática deve ser realizado através
de uma matemática aplicada. Esta matemática
deve estar voltada aos interesses do aluno e da sociedade.
É preciso fazer com que a matemática seja
atraente para os alunos. Nosso ensino hoje está
muito voltado, ainda, para a memorização
de fórmulas e conceitos. Na formação
do aluno, é preciso que o mesmo saiba, não
decorar fórmulas, e sim, aplicá-las.
UNITERMOS: matemática aplicada; ensino; educação;
modelagem
ABSTRACT:
This article seeks to make one brief revision of the
concept of some topics of the history of Mathematics
and its application in the life of the pupils and the
society as a whole. Since the beginning, Mathematics
has had a very great application as a tool that assisted
all the other sciences. It is necessary to understand
that the teaching of Mathematics must be carried through
an applied Mathematics. This Mathematics must be directed
to the interests of the students and the society. Therefore,
it is necessary to make it attractive for the students.
Our education today is mainly directed towards memorization
of all the formulas and concepts. In the formation of
the student, it is necessary that the students knows
not how to decorate formulas, but rather how to apply
them.
KEYWORDS: applied mathematics; education; modelation
Desde que o homem começou a observar os fenômenos
naturais e verificar que os mesmos seguiam princípios
constantes, ele observou que estes fenômenos podiam
ser colocados por meio de "fórmulas".
Este princípio levou a utilização
da matemática como uma ferramenta para auxiliar
estas observações. Este é o princípio
da matemática como um modelo, ou seja, modelar
matematicamente o mundo em que vivemos e suas leis naturais.
No Egito antigo, a matemática, por meio da geometria,
procurou resolver os problemas causados pelas enchentes
do rio Nilo. Estas enchentes causavam um transtorno
muito grande aos trabalhadores e proprietários
de terras, pois quando as águas baixavam, os
terrenos não possuíam mais seus limites
definidos. Era necessário que todos remarcassem
suas divisas. Com o auxílio da geometria esta
tarefa tornou-se mais fácil de ser realizada.
Além disto, a matemática foi uma ferramenta
essencial ao implemento da astronomia pelos sacerdotes
egípcios. Desde o Egito antigo a astronomia foi
uma área das ciências que utilizou a matemática
como uma ferramenta.
Na Grécia antiga, vários pensadores procuraram
modelar situações do cotidiano com o auxílio
da matemática. Arquimedes disse: "dê-me
uma alavanca e moverei o mundo". O mesmo Arquimedes,
ao imergir em uma banheira com água descobriu
como calcular a massa de ouro constante em uma coroa.
Pitágoras formulou seu mais conhecido teorema:
"a soma do quadrado dos catetos é igual
a hipotenusa ao quadrado". Este teorema é
extremamente necessário ao cálculo de
triângulos, base de muitos cálculos da
engenharia, arquitetura e outros. Mesmo um simples pedreiro,
ao realizar o levantamento das paredes de uma casa ou
mesmo do alicerce, precisa utilizar um triângulo
retângulo pitagórico para colocar alinhamento
em sua construção. Ele não sabe
que o seu trabalho utiliza o triângulo de Pitágoras.
Assim, ele tem o conhecimento prático mas não
tem o conhecimento empírico. Na Grécia,
também, tivemos o surgimento de uma sociedade
fechada, destinada ao estudo da matemática: a
sociedade pitagórica. Esta sociedade tinha por
princípio que tudo na natureza e na vida das
pessoas poderia ser expressa por meio de números.
Pitágoras já dizia que "tudo é
número". Esta sociedade sofreu uma contestação
muito grande por parte de filósofos gregos, principalmente
Sócrates. Sócrates questionava muito esta
idéia pitagórica de que tudo no mundo
poderia ser expresso por meio de números. Sócrates
questionava o conceito de que 1+1=2. Como que duas unidades
separadas, diferentes, ao serem adicionadas poderiam
resultar em uma?
Durante o período Grego, a matemática
evoluiu muito. Mas mesmo nesta evolução,
a matemática era essencialmente prática.
Ela se destinava a resolução de problemas
práticos. Mas, foi durante o período Grego
que a matemática começou a ser vista não
como uma simples ferramenta que auxiliava aos problemas
diários, mas que também ela poderia ser
uma ciência teórica. Demonstrações
de teoremas, postulados e análises começaram
a tomar forma cada vez mais forte. Este é o outro
enfoque que a matemática pode abordar. É
a parte pura da matemática, que também
pode ser trabalhada de uma maneira interessante junto
aos alunos.
Neste período grego, tivemos vários desenvolvimentos
da matemática. Euclides escreveu seus "Elementos",
os quais fornecem toda a base de nossa geometria atual.
Apolônio de Perga desenvolveu toda a teoria das
"Cônicas". Tales também deu importantes
contribuições à geometria. Durante
o período grego a matemática teve um desenvolvimento
muito grande. Seja na parte aplicada ou na parte pura.
Mas, com certeza o desenvolvimento maior se deu na parte
da matemática abstrata.
Com o declínio da hegemonia Grega, entra em cena
a matemática dos Árabes e Hindus. A matemática
Árabe e Hindu também foi essencialmente
prática. Com o aumento do comércio entre
os povos a matemática teve papel importante.
Precisava-se registrar as compras, as dívidas,
os juros. Além disto, foi com os Hindus que obteve-se
uma forma de calcular áreas de uma maneira rápida
e fácil, através do processo elaborado
pelo matemático Báskhara. A invasão
do continente europeu pelos muçulmanos levou
a este a matemática Árabe e Hindu. Este
contato propiciou a que os europeus tivessem conhecimento
desta grande matemática desenvolvida no oriente
médio e na Ásia. Durante este período
onde houve uma hegemonia árabe e hindu sobre
as ciências, a europa estava voltada sobre o feudalismo
e o controle rigoroso da igreja católica, o qual
fez cercear o conhecimento científico, não
havendo avanços significativos na matemática.
Durante a idade média, as ciências sofreram
um bloqueio muito grande por parte da igreja, que vetava
tudo que fosse contra os dogmas religiosos da época.
Mesmo assim conseguiu-se alguns progressos interessantes
na observação de alguns fenômenos
naturais e sua conseqüente modelagem para aplicação
prática. Fibonacci criou a sua famosa série
ao observar a procriação de coelhos. Copérnico
também utilizou os conhecimentos da astronomia
e da matemática para provar que era a terra que
girava em torno do sol. Giordano Bruno também
questionou dogmas religiosos da época por meio
de observações realizadas na natureza.
Um de seus questionamentos foi quando ele desenvolveu
a teoria de que o universo era infinito. Por causa desta
sua teoria foi preso, questionado pela inquisição
e como não abdicou de suas teorias, foi queimado
vivo em Roma. Leonardo da Vinci utilizou em suas pinturas
a razão áurea. Além do que Da Vinci
foi um grande cientista e inventor que utilizou a matemática
como uma ferramenta necessária aos seus inventos.
A partir da idade média até o fim do século
passado, os grandes pensadores utilizaram a matemática
como uma ferramenta para modelar os fenômenos
da natureza (gravidade, luz, reflexo, velocidade, tempo,
etc...). Renné Déscartes (matemático
e filósofo Francês) foi um pesquisador
das ciências, filosofia, direito, entre outras
ciências, que procurou modelar situações
do cotidiano e da natureza por meio da geometria analítica.
Déscartes foi quem, em primeiro lugar, representou
funções por meio de representações
gráficas. Muitas das modelagens que Déscartes
fez com a geometria analítica são base,
hoje, para situações da administração,
economia, ciências contábeis, informática,
etc. Isaac Newton procurou modelar os fenômenos
físicos por meio de modelos matemáticos.
Newton conseguiu demonstrar que todos os fenômenos
da natureza podem ser modelados matematicamente. O maior
matemático francês do século XVI
foi François Viéte. Segundo a história,
Viéte conseguiu quebrar um código secreto
usado pela Espanha, formado por, aproximadamente, 600
caracteres, conseguindo com isto uma vantagem para seu
país na guerra travada contra a Espanha durante
dois anos. O rei Felipe II da Espanha estava tão
seguro de seu código secreto que acusou Viéte
de que a França estava usando magia contra seu
país.
Durante o renascimento ocorrido na Europa a partir do
século XIV e, principalmente, até o século
XVI, ocorreu um grande desenvolvimento da matemática.
Neste período foram determinados grandes avanços
científicos e matemáticos que auxiliaram
em grande parte aos descobrimentos marítimos
e que levaram à revolução industrial
no final do século XVII e começo do século
XVIII.
Com a revolução industrial a matemática
tomou um impulso muito grande, pois foi preciso criar
modelos teóricos para implementação
de máquinas, centros de produção,
produção em série e armazenamento,
entre outros. Aqui, a engenharia foi uma das ciências
que mais utilizou a ferramenta matemática. Com
o aumento do uso da engenharia, também foi muito
útil o desenvolvimento do cálculo diferencial
e integral.
Após a segunda guerra, a matemática ajudou
a desenvolver um outro campo que estava começando
a ser desenvolvido em larga escala: a informática.
Hoje sabemos que é impossível desenvolver
tópicos em informática sem o uso da ferramenta
matemática. Apesar de que esta ferramenta é
essencial à informática, ainda vemos alguns
cursos superiores em informática e/ou sistemas
de informação que estão eliminando
várias matérias de matemática de
seus cursos, visto que causa muita reprovação
entre os alunos. A matemática é um modelo
básico para a informática, a qual está
toda fundamentada no sistema binário (0-1).
Com este comentário sobre alguns cursos superiores
não utilizarem a matemática devidamente,
quero fazer uma explanação de como podemos
auxiliar aos alunos e as instituições
em uma maneira mais clara de ensinar a matemática,
especificamente, o ensino da matemática em cursos
que dela fazem uso.
A empresa Walt Disney produziu, na década de
80, um filme intitulado "Donald no país
da matemágica". Este filme procura mostrar
muitas aplicações da matemática
no cotidiano, bem como na natureza. Ele apresenta de
maneira clara e precisa que os conceitos matemáticos
modelaram todo o conceito de arquitetura dos Gregos
até a metade do século passado, com o
retângulo de ouro (Partenon, catedral de Notre-Dame,
estátuas gregas, etc). A natureza nos fornece
uma infinidade de plantas que seguem o formato do pentagrama.
As abelhas têm seus favos em formato hexagonal,
ou seja, a natureza está toda moldada matematicamente.
A medicina, campo onde muitos acreditam que não
há como a matemática prosperar, também
é um exemplo de que podemos modelar matematicamente
várias situações. Como exemplo
podem ser citadas as batidas do coração
em um intervalo de tempo. Elas podem ser modeladas por
meio de uma função trigonométrica.
O respirar, contração e expansão
dos pulmões também seguem o princípio
trigonométrico. Mesmo a medicina necessita de
dados estatísticos. Como obter estes dados estatísticos?
Somente com o uso da matemática. Assim, até
na medicina a ferramenta matemática é
necessária. Sem a matemática, todos os
instrumentos ópticos que a medicina usa seriam
impensáveis. Hoje são realizadas cirurgias
a laser. Como pensar nestas cirurgias sem a ferramenta
matemática?
A biologia é outro ramo da ciência que
utiliza a matemática como modelo ou ferramenta.
O processo de análise combinatória, probabilidade
e estatística teve seu início na biologia
e posteriormente foi encampada e desenvolvida pelos
matemáticos.
Na administração, economia e ciências
contábeis temos uma aplicação direta
dos conceitos de função, diferenciais
e integrais. A logística é outra disciplina
que utiliza amplamente os conceitos matemáticos.
Trabalhei por vários anos em cursos superiores
de administração e é com tristeza
que vejo estes cursos usarem de uma forma muito simples,
e em muitas vezes errada, desta ferramenta essencial.
Várias instituições de ensino superior
destas áreas estão tirando de suas grades
curriculares as disciplinas de matemática. Usam
como base para esta escolha o fato de que os alunos
têm muitas dificuldades nesta matéria.
Sabemos que os alunos vêm com uma defasagem muito
grande do ensino médio, o que acarreta altos
índices de reprovação nos primeiros
semestres dos cursos superiores.
Qual o problema do ensino da matemática no ensino
médio? Porque os alunos não gostam dela?
Como proceder para reverter este quadro?
Tudo que não tem sentido para o aluno, não
tem uma aplicação prática, não
leva a um interesse por parte dele. Como reverter este
quadro? Os professores de ensino fundamental e médio
precisam entender que a matemática não
pode ser ensinada como uma matéria teórica,
como uma ciência abstrata. Se isto for feito,
o aluno não vê uma aplicação
para ela, não vai entender e não vai gostar.
Portanto, precisamos ensinar a matemática como
um modelo que vai auxiliar a todas as demais atividades
humanas. Precisamos mostrar ao aluno que todos os conceitos
matemáticos têm aplicação
nos diversos ramos da vida humana. Posso citar como
exemplo o ensino de funções, onde procurei
mostrar aos alunos do primeiro ano do ensino médio
o seu uso e sua aplicação em diversos
problemas de administração, economia e
contábeis. O aluno precisa entender que aqueles
conceitos matemáticos que não tem uma
aplicação imediata, servem de subsídio
para os demais, que tem. Outro exemplo que podemos citar
é um assunto considerado extremamente difícil
e complicado para o aluno: logaritmos. Se o ensino dos
logaritmos for efetuado de uma forma pura, é
lógico que o aluno não terá interesse.
Mas, se este ensino for efetuado relacionando o seu
uso com, por exemplo, o cálculo do tempo de aplicação
do juro composto, o aluno verá uma relação
com uma situação prática e entenderá
que logaritmo pode ser um modelo para cálculo
de juro composto. Assim como este, existem "n"
situações onde o educador pode e deve
fazer a "ponte" entre a matemática,
seus modelos e a realidade do aluno.
O grande problema é que, basicamente, temos um
ciclo vicioso. Temos alunos que detestam a matemática,
pais que não compreendem esta "matemática
moderna" e professores que, basicamente, em sua
formação não tiveram acesso à
história da matemática e não sabem
aplicar a mesma como um modelo para a vida do aluno
e da sua família. Muitos pais dizem que não
tem como auxiliar seus filhos, pois esta matemática
moderna é diferente daquela do tempo deles. Eles
estão em parte certos. A matemática é
a mesma do tempo dos Gregos. Ela não mudou, evoluiu.
Nossos pais tinham uma matemática mais simples,
pois a sua vida era mais simples. Bastava para eles,
basicamente, conceitos simples da matemática.
Com a evolução da sociedade, evoluiu a
matemática. O grande problema que vejo é
a falta de embasamento dos professores quando vão
exercer o ofício em sala de aula. São
poucos os professores que conseguem fazer a "ponte"
entre a teoria e a prática. De quem é
a culpa? Das instituições de ensino superior
que não fornecem em seus cursos matérias
voltadas para este ensino e dos profissionais da educação
que não procuram se atualizar e estudar uma melhor
maneira de efetuar este ensino da matemática
como ferramenta. Isto gera o ciclo vicioso: o aluno
aprende de uma maneira abstrata, a seguir este aluno
ingressa em uma faculdade, torna-se professor e voltará
para a sala de aula, onde formará outro profissional
nos mesmos moldes em que ele foi formado. Precisamos
romper este círculo. Cabe ao professor fazer
a ligação da matemática com a realidade
por meio de atualizações constantes.
Assim, a grande dificuldade está em fazer o educador
transportar a realidade do aluno para o cálculo
matemático. É muito mais cômodo
e simples ao educador trabalhar com um livro didático
do que elaborar questões que farão o aluno
pensar. O educador jamais deveria trabalhar com questões
prontas, "fechadas". As questões devem
contemplar estes itens: leitura, interpretação,
montagem e resolução. Quando estes quatro
itens são contemplados, exigirá do aluno
um conhecimento muito mais amplo, não apenas
matemático.
Aqui surge um problema. Grande parte das universidades
não ensina ao futuro educador a matemática
com aplicações. Normalmente a disciplina
"História da Matemática" não
faz parte do currículo universitário.
Esta deficiência será repassada ao aluno,
pois se o educador tem uma formação deficiente
ele repassará esta deficiência aos alunos.
Outro ponto importante a ser considerado é quanto
à "reciclagem" dos profissionais em
educação matemática. Muitas vezes
não é oportunizado pelas escolas e governos
a que o professor faça cursos de reciclagem ou
mesmo de aperfeiçoamento do ensino da matemática.
Além disto, a maioria dos cursos é sobre
matemática pura ou educação matemática.
Não há muita oferta de cursos sobre matemática
aplicada ou mesmo sobre como usar a matemática
como uma ferramenta auxiliar às demais disciplinas.
Por tudo o que foi comentado, podemos observar que não
há como dissociar a matemática e seus
modelos das situações práticas.
Nas palavras de Galileu: "a matemática é
o alfabeto com o qual Deus escreveu o universo".
Também nas palavras de Pitágoras: "tudo
está arranjado conforme as formas e os números".
Para concluir, podemos afirmar que o caminho para a
melhoria do ensino-aprendizagem da matemática
só terá uma melhoria significativa se
educadores e alunos virem a matemática como um
modelo ou uma ferramenta necessária para modelar
todo o processo de suas vidas.
REFERÊNCIAS
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